Acordou de uma forma diferente. A diferença não estava no modo como acordara, mas sim no modo como se sentia. Sentia que era capaz de conseguir tudo o que quisesse. Já imaginou todo o poder do mundo em suas mãos? Pois era mais ou menos assim que se sentia naquele momento.
Poderia ter escolhido ter qualquer coisa, mas escolheu tê-la – e nisso reconhecia um terrível cliché. Mesmo assim saiu de casa determinado: hoje iria possuí-la. Sabia que durante toda a noite ela estaria em uma festa, logo saiu para comprar roupas. Uma situação como aquela, demandava estilo – coisa que ele tinha de sobra, apesar de não saber disso.
Sentia-se bonito, mas continuou tentando outras roupas até estar totalmente certo de que aquela era a adequada – e infalivelmente seria. Ao sair da loja, parou na porta e encarou durante alguns segundos seu distorcido reflexo no vidro. Sentia-se bem e tinha todo o tempo do mundo. Esperou um breve momento e saiu da loja, deixando pra trás apenas um vidro sujo. Em sua sacola, um terno, óculos escuro, perfume e um punhado de confiança. Todos os equipamentos necessários para sua caçada.
Sua tarde foi agradável e a cada instante que passava, se sentia mais e mais próximo de tê-la. Controlou seu anseio e reviu todos os passos de seu approach. Será na frente de todos, chamando o máximo de atenção possível. Ao entrar irá direto até ela, e Irá gastar uma fortuna – talvez para impressionar todos os presentes, e a possuirá de forma abrupta, porém confiante, não ficando mais do que 3 minutos no salão. Finalmente, a levará para longe de todos e serão felizes para sempre – doce cliché.
A hora estava chegando e, por apenas alguns segundos, sua confiança estremeceu, ali mesmo, em frente ao espelho. Teria ele vontade suficiente para seguir em frente? Mas que besteira é essa? É claro que tinha! Revisou mentalmente seu plano – não tinha falhas, e saiu de casa a fim de encontrá-la.
Ao chegar na frente do evento, vê uma multidão de pessoas. O que já era esperado, pois um evento automobilístico sempre atrai uma legião de pessoas doentes e fanáticas. Ele mesmo era um entusiasta. Engraçado como quase esquecera desse fato naquele momento.
Entrou no salão, e foi em direção a área das motocicletas. Em poucos instantes chegou até o balcão de pagamentos e tirou 120 mil reais do bolso. A transação foi rápida e suja. Instantaneamente o burburinho começou, ele acabara de comprar uma Honda vf1000f2 prateada. Realmente, tinha conseguido atingir um de seus objetivos, o de chamar muita atenção.
Não mais que 3 minutos depois, conforme havia planejado, estava deixando o salão com ela, sentindo o vento na cara e o coração fervilhando. Voando a 150 km/h, definitivamente, não se arrependia de ter comprado uma moto, mas o cliché lhe pareceu meio idiota no momento.