Acordava sempre tão cedo que era possível, ainda, farejar os aromas da noite anterior. O sol, doente, iluminava tudo ainda como se fosse um aprendiz desastrado. Pra falar bem a verdade, dormia pouco. Apenas duas horinhas para fingir para Deus que era quase normal. Só mais tarde, vim realmente saber que, na maioria das vezes, ele nem chegava a dormir e só esvaziava sua mente.
Era um sujeitinho cheio de manias que colecionava coincidências. Deliciava-se ao ver a teia do tempo que, ao se desembaraçar, convergia de direções diversas como se estivessem indo para uma reunião secreta. Para uma pessoa normal, isso pareceria apenas um emaranhado de fios entrelaçados e sobrepostos aleatoriamente. Pra ele, era como uma pintura impressionista, que quando vista de perto é feita de borrões e pinceladas brutas, mas que à certa distância, adquire uma perfeição mais bela que a própria fotografia.
Naquele dia, ele e seu parceiro receberam uma missão e ficou responsável por dirigir o carro. Não precisaria sujar as mãos. Entretanto, se a coisa ficasse preta, ele teria que ser rápido e habilidoso – pensou.
O prédio era no fim de uma longa ladeira e esperava seu parceiro terminar o serviço com o carro ligado. Exatamente no momento em que se distraiu, a poucos metros atrás do carro, sentiu o estrondo grave que um pesado caminhão faz quando desce um declive acidentado. Na verdade, notou que já estava escutando o som a algum tempo, mas estava distraído mesmo. Só teve tempo de pensar que aquele momento seria perfeito para morrer.
Logo depois, o caminhão passou. Ainda não era sua vez.
Poderia ter morrido ali, mas não morreu e, por isso, muitas das pessoas que cruzaram seu caminho no futuro se arrependeram. Confidencio que esses encontros de diferentes sortes, aos olhos do leitor, poderão ser muito mais interessantes. Contudo, preferi narrar a sua quase-morte primeiro, a fim de introduzir aos poucos a enigmática personagem que apesar de em relance parecer ser facilmente admirada, quando analisada mais atentantamente poderá surpreender.
Sei que ainda estamos antes do “flop”, mas acho que o leitor já pode iniciar suas apostas.