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Hoje acordei e notei que um pedaço meu estava faltando. Um pedaço justamente com as melhores coisas em mim.

Até então, não sabia exatamente o tamanho desse pedaço. Não sabia nem que era possível me enxergar sem isso, ou enxergar isso sem mim. Afinal, fazia parte do meu corpo e da mesma forma como é difícil em um deserto dizer onde uma duna acaba e a outra começa, era difícil saber a extensão disso que perdi – até realmente perder.

Não sabia que ia fazer tanta falta assim.

Ainda não descobri se consigo viver sem isso, mas existem tantas perguntas sem respostas por aí no ar que está difícil  até de respirar…

E o tempo parou

Sem aviso nenhum, no instante exato em que olhei naqueles olhos, o tempo parou. Nada podia ter impedido aquilo de acontecer. Nada quebraria aquele momento e por mais que todos em volta lutassem para que o tempo voltasse ao normal, tudo permaneceria parado do jeito que eu queria.

Pouco a pouco, todo o resto perdeu o sentido, tudo ficou cinza e nada mais importava. Só aquele céu.

Naquele segundo, pedi – e eu nunca peço nada – que o tempo realmente parasse. Pra sempre.

Mas então o próximo segundo aconteceu e eu sabia que nunca mais veria aquele céu. Até hoje lembro de quando o tempo parou…

O início da rodada

Acordava sempre tão cedo que era possível, ainda, farejar os aromas da noite anterior. O sol, doente, iluminava tudo ainda como se fosse um aprendiz desastrado. Pra falar bem a verdade, dormia pouco. Apenas duas horinhas para fingir para Deus que era quase normal. Só mais tarde, vim realmente saber que, na maioria das vezes, ele nem chegava a dormir e só esvaziava sua mente.

Era um sujeitinho cheio de manias que colecionava coincidências. Deliciava-se ao ver a teia do tempo que, ao se desembaraçar, convergia de direções diversas como se estivessem indo para uma reunião secreta. Para uma pessoa normal, isso pareceria apenas um emaranhado de fios entrelaçados e sobrepostos aleatoriamente. Pra ele, era como uma pintura impressionista, que quando vista de perto é feita de borrões e pinceladas brutas, mas que à certa distância, adquire uma perfeição mais bela que a própria fotografia.

Naquele dia, ele e seu parceiro receberam uma missão e ficou responsável por dirigir o carro. Não precisaria sujar as mãos. Entretanto, se a coisa ficasse preta, ele teria que ser rápido e habilidoso – pensou.

O prédio era no fim de uma longa ladeira e esperava seu parceiro terminar o serviço com o carro ligado. Exatamente no momento em que se distraiu, a poucos metros atrás do carro, sentiu o estrondo grave que um pesado caminhão faz quando desce um declive acidentado. Na verdade, notou que já estava escutando o som a algum tempo, mas estava distraído mesmo. Só teve tempo de pensar que aquele momento seria perfeito para morrer.

Logo depois, o caminhão passou. Ainda não era sua vez.

Poderia ter morrido ali, mas não morreu e, por isso, muitas das pessoas que cruzaram seu caminho no futuro se arrependeram. Confidencio que esses encontros de diferentes sortes, aos olhos do leitor, poderão ser muito mais interessantes. Contudo, preferi narrar a sua quase-morte primeiro, a fim de introduzir aos poucos a enigmática personagem que apesar de em relance parecer ser facilmente admirada, quando analisada mais atentantamente poderá surpreender.

Sei que ainda estamos antes do “flop”, mas acho que o leitor já pode iniciar suas apostas.

Alguns relatos

Vez por outra, ainda me pego por tentar entender alguns fatos que acontecem por aí. Não que isso seja muito importante – nada mais natural quando se sente diferente dos demais. Por ora aprendi pouco e as poucas conclusões que tirei, compartilho no exato momento. Espero que lhe sirvam pra algum propósito.

O fato é que meu tempo por aqui é meio curto e acho que não vai dar pra entender tudo. O jeito então é usar as coisas sem saber realmente como funcionam. Assim como faz um pobre velhinho diante de um caixa eletrônico. As instruções meio que estão ali – ele apenas não as entende.

E o pior de tudo é que a idéia de usar as coisas sem saber realmente como funcionam acabou por me divertir mais do que agir seguindo os manuais. Qual era a graça mesmo em apertar um botão sabendo exatamente o que ia acontecer? Não, não. É tão mais legal apertar e ver no que dá hehe.

É claro que vez por outra, acabam acontecendo coisas indesejáveis e isso faz parte, ora não sabemos usar as coisas. O mais legal é que a constância dessas coisas esquisistas que teimavam em acontecer, fez com que eu me acostumasse. E pior ainda, como uma criança que encara seu novo brinquedo recém tirado da caixa, me sinto quando apresentado a uma dessas situações esquisitas. Passei a realmente me divertir.

Agora me tornei escravo das coincidências e dos botões desconhecidos. Não tem a menor graça apertar um botão se eu souber o que ele faz da mesma forma como não tem menor graça conhecer alguém em quem não tropecei totalmente por acaso…

Naquele Momento

Por debaixo de sua máscara sentia a lágrima escorrer. Era difícil respirar e alguém insistia em lhe apertar a garganta. Portanto era difícil também falar. Naquele momento, conseguia apenas pensar, sentir e chorar.

Não conseguia entender o motivo de estar assim. Então talvez não estivesse conseguindo pensar.

Não conseguia ouvir seu coração bater. Então talvez não estivesse conseguindo sentir também.

Através de sua máscara, olhando para o espelho, não conseguia ver suas lágrimas. Talvez não estivesse conseguindo chorar.

A última vez que chorou, não conseguia lembrar. Talvez não estivesse conseguindo viver também.

Papo esquisito

Era um papo assim, meio esquisito.

Como quem não queria nada, conversavam sobre uma igreja de sete santos em uma noite que não prometia absolutamente nada.

Ele tentava convencer ela a ir na igreja. Ela não era religiosa.

Ele gostava de falar coisas sem sentido. Ela tinha uma girafa de pelúcia.

Ele era revoltado. Ela detestava gente iludida.

Ele usava sabonete PH neutro. Ela odiava lagartas.

Ele era bom em ler mentes e em ver o futuro. Ela tinha boa memória fotográfica.

Ele nunca tinha jogado boliche. Ela nunca tinha visto Mary Poppins.

Ele sentia tédio. Ela chamava isso de marasmo.

Lembro-me vagamente que tudo isso ainda tinha algo a ver com uma terra bem distante onde predominavam muros, tijolos, bandidos e truques. Mas que papo estranho heim?

Pra quem vê de fora, nada disso faz o menor sentido, mas pra eles tinha e eles se entendiam.

Dizem que quando duas pessoas estão conectadas, conseguem conversar em uma língua diferenciada, que só elas mesmo entendem. Acho que era isso que acontecia, afinal.

É a vida…

Uma vez, enquanto criança, meu tio biólogo havia me ensinado algo sobre genes egoístas. Mas eu só lembrava mesmo era da parte dos memes: idéias que saltam de cérebro em cérebro através de um processo chamado imitação. Sempre achei a idéia maravilhosa e isso nunca me saiu da cabeça, desde criança. Sempre gostava de observar, e de repente – durante aquele terrível insight – havia decidido que gostava de imitar.

Treinava só, em meu canto minha técnica de imitação. Era como se, de alguma forma, eu  já soubesse como fazer isso, apenas havia esquecido. Pensava assim porque quanto mais aprendia, mais tinha a impressão de que já sabia. Mesmo assim dediquei mais tempo do que consigo lembrar aos estudos e finalmente criei um processo contínuo de observação e imitação.

Eu era uma interminável colcha de retalhos, com todas as manias, jeitos, andares, poses que conseguia coletar pela vida afora. Me sentia o máximo e o tempo foi passando. Cortando fora pedaços que deixava de gostar, costurando novas belas partes, ia me moldando ao espaço e ao tempo. E fiz isso por muitos anos.

Mas esse processo sempre foi muito cansativo e um dia, não lembro exatamente quando, me peguei pensando que, apesar de tantas personalidades contidas em mim, eu era muito sem personalidade. Me senti então vazio. Como se toda a energia que eu gastasse, já não retornasse mais. Pedalava sem parar, em uma bicicleta que não saia do lugar. Comecei a me sentir triste.

Isso foi perto do meu aniversário de 80 anos e na véspera, enquanto refletia em minha cama, decidi que havia cansado de imitar.

Pois é a vida… acho que o resto da história, eu não preciso contar.

Imitação fajuta

Ele não era bom em muitas coisas. Em muitas mesmo. Mas eram duas as coisas que sabia fazer muito bem: observar e imitar. Sentava calado, apenas observando e se divertia com isso. Todos achavam que ele era tímido e derrepente, BANG! Lá estava ele bem no centro da roda divertindo a todos.

O processo de imitação nunca era simples. Ele observava durante muito tempo, memorizava gestos, posturas, entonações de vozes. Depois escrevia textos expressando exatamente o tom que queria imitar. Esse era seu segredo. Ele escrevia textos imitando pessoas antes mesmo de imitá-las fisicamente. Era uma espécie de imitação mental. Assim não havia possibilidade de falha.

Mas nem sempre foi assim. Viveu por um longo período sem saber imitar e passou a maior parte de sua vida observando mesmo. Pra falar bem a verdade, eu menti quando disse que ele só sabia fazer duas coisa. Ele também tinha uma grande imaginação.

Dentro de sua mente, conseguia criar lugares inteiros repletos de pessoas, detalhes e sentimentos. Poderia assistir ao filme que quisesse com os personagens a sua escolha fazendo exatamente o que ele queria. Isso o ajudava na hora de criar seus textos também…

Com o passar dos anos, ficou cada vez melhor e mesmo com o peso de todas aquelas décadas em seus ombros, continuava jovem. Quem via, não acreditava. Como ele não envelhecia?

No dia em que completaria 80 anos foi encontrado morto em sua cama. Parecia estar fingindo dormir, mas ele estava morto mesmo.

Então todos perceberam que ele não passara de uma imitação fajuta.

Dúvida infame

- Ei! O que que você tá olhando, cara? – perguntou a garota da camisa marrom.

- Humm, eu não tava olhando nada – retruquei.

- Claro que tava. Você tava olhando pro meu corpo – afirmou ela com o olhar flamejando enquanto balançava a cabeça afirmativamente.

Olhando pro lado mirando um canto qualquer falei:

- Eu não estava… escuta, qual é o seu nome mesmo? – virei para seu rosto.

- Melanie – respondeu.

Virei pra frente de novo e houve um curto intervalo de silêncio que ela mesmo quebrou:

- Escreve com um ê no final, mas tem som de i mesmo.

- Ahhhh. Veja bem Melanie, a minha irmã, sabe, ela tem essa mesma camisa. Marrom com uma nuvem espetada num palito, que nem algodão doce. Por isso eu tava olhando. Era isso. Tava tentando lembrar de onde eu conhecia a camisa – disse sem muita esperança que ela acreditasse.

Ela fez uma cara que me lembrou muito a cara que minha mãe fazia quando eu aprontava alguma. Foi até engraçado na hora, sério! Mas logo em seguida ela simplesmente puxou a cordinha.

- Vai descer agora? – quis puxar assunto.

Sem falar nada ela apenas vira e caminha em direção ao fundo do ônibus.

- Era verdade! – digo sem graça enquanto me viro para o fundo.

- Eu acredito – emendou ela sem me olhar enquanto descia pela escada do ônibus.

Pois é. Acho que nunca mais vou ver a Melanie.

Putz! E o pior é que agora eu fiquei com aquela puuuuta dúvida infame. Será que eu tenho boa memória mesmo ou fico só sacando os peitos da minha irmã gostosinha?

Estação Fantasma

Notas de piano pairam no ar. Movem-se quase que imperceptíveis pela estação. Um frio de cortar a alma corre pelo extenso corredor, fazendo com que alguns cartazes balancem dementemente para um lado e para o outro.

Nos bancos ninguém. Apenas símbolos e sinais de protesto em tinta preta. Tinta daquelas que não sai. Em ambas as pontas da estação, apenas a escuridão. O tempo se arrastava, como se não tivesse nada para fazer. Trabalhava preguiçosamente e até de forma desleixada.

Enquanto andava, nem mesmo meus próprios passos conseguia ouvir. Me sentia só. Perambulando em busca de algo que provavelmente não estava ali. Mesmo assim, por cada centímetro da estação, continuei procurando. Absorvendo cada detalhe, por menor que fosse. Assim progredi por dias.

Meses.

Anos…

Finalmente naquela noite do piano, descobri. Na verdade, o fantasma da estação era eu.

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